Entrou no ar a TV Digital. Ninguém viu.

O Tiago Dória, como de costume, está com um post muito bom sobre a TV Digital. Na quinta-feira um jornal local me pediu um artigo sobre o tema, fiz e pelo que sei não saiu e foi publicado. Está aí na íntegra, com uma pequena correção de tempo.

Neste domingo a TV Digital vai entrar entrou no ar em São Paulo. De repente um tema que nunca ficou muito claro para quase ninguém virou barbada em anúncios publicitários e matérias jornalísticas. É o assunto do momento. Divulga-se que será tudo uma maravilha. A impressão que dá é que vai mudar muita coisa, embora muito pouca gente saiba o quê. A verdade é que por enquanto não vai mudar praticamente nada.

Há pouco tempo recebi o convite do professor-doutor Cidcley Teixeira, um dos pesquisadores responsáveis pelo Sistema Brasileiro de TV Digital, para participar do Grupo de Pesquisa e Desenvolvimento em TV Digital Interativa. Nesse primeiro momento os textos disponibilizados e os debates têm feito o grande favor de me tirar da sombra. Antes, por estar interessado no tema, devorava informações contraditórias publicadas por grandes grupos de comunicação que transformam tudo num oba-oba obscuro, e ficava perdido sem estabelecer de forma nítida uma ligação do “fato” com a realidade. Mais uma prova que a comunicação, quando bem feita, pode tornar tudo absolutamente confuso – não dá para acreditar que a intenção nesse caso seja outra.

A curto prazo o que acontecerá é que a TV Digital irá proporcionar imagem e som melhores. Claro que isso não é para qualquer um. Ou você desembolsa uma boa grana para comprar uma TV nova adaptada ou um conversor de sinal analógico para digital. Ah, nesse caso, pelo menos nessa primeira fase, é necessária também a aquisição da feiosa antena UHF. Tem loja vendendo conversor por R$ 1,1 mil. Até o momento o mais barato custa em torno de R$ 400,00. Convenhamos que, por mais que o ministro Hélio Costa insista que vai conseguir baixar os preços antes mesmo que o mercado o faça, a relação custo-benefício ainda não é das mais sedutoras.

E onde é que ficam as questões da mobilidade, interatividade e inclusão social? A idéia é que ficassem para depois. Esqueceram apenas que em toda festa animada alguém resolve ir cozinha. Aí complica, porque o lugar de onde vem os quitutes pode não ser como a gente espera. A tão falada interatividade, por exemplo, ainda é o mais absoluto enigma.

Interatividade não é apenas, através de um controle remoto, escolher o candidato do Big Brother que você deseja que ganhe R$ 1 milhão. Ou comprar um vestido igual ao da atriz da sua novela preferida apenas num clique. Dá para ir bem além. O fato é que não existe um modelo definido de como se dará essa interatividade de forma relevante. De antemão vamos lembrar que não estamos falando de Internet nem da maneira tradicional de se assistir TV. Alguém pode até dizer: “No futuro TV e computador serão uma coisa só”. Provavelmente sim - talvez não -, mas convenhamos que no Brasil ainda não está tão próximo o dia que os computadores estarão em todas as casas onde há televisão.

Estamos falando de uma nova forma de criar e produzir conteúdo, de uma nova forma de se relacionar com o conteúdo distribuído. Tudo isso sem prejudicar a experiência coletiva familiar de consumo do referido programa ou filme. É através dessa interatividade real que se pode chegar a um modelo de inclusão social plausível. Esse conceito de interatividade não foi desenvolvido, muito menos as ferramentas necessárias para que ele se realize. Existem avanços consideráveis, assim como lacunas gigantescas que estão sendo escondidas nos fundos da festa. O que a gente quer com o Grupo de Pesquisa e Desenvolvimento em TV Digital Interativa é, aqui do Ceará, deixar a festa mais bonita, criando um modelo que permita a participação de muito mais gente.

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