Internet pra pobre

Num jantar que antecedeu o Internet Governance Forum (IGF), realizado semana passada no Rio, Vint Cerf, vice-presidente do Google e um dos criadores da Internet, disse que o principal objetivo do evento era levar acesso s 5 bilhões de pessoas que ainda não estão conectadas internet. Isso aconteceu quase simultaneamente declaração de outro executivo do Google prevendo um boom na publicidade online do Brasil em poucos meses.

As duas notícias não são paradoxais, apenas expõem o que a gente sabe há muito tempo: a existência de mundos completamente diferentes dentro do mesmo planeta, e que o mundo que nós, conectados, vivemos, é muito menor do que outro. Tá, e daí?

Todos nós sabemos que poucos investimentos podem ser mais rentáveis do que os focados nos públicos de baixa renda. Casas Bahia é apenas um dos exemplos. Dia desses ouvi de um empresário que vende sapatos baratíssimos com esses crediários de mil vezes afirmando com todas as letras que não sabia mais onde colocar tanto dinheiro.

E como a internet entra nisso?

Nessa semana comecei a dar aula de conteúdo web (estimulando criação de blogs, podcasts, …) em um projeto da ong Aldeia instalado dentro de uma escola pública numa comunidade carente. No segundo dia fomos a uma lan house. Os meninos excitadíssimos, todos correndo pro Orkut. Ratifico o que já tinha visto em outros bairros: o Orkut é a ferramenta mais eficiente de inclusão digital. O problema é que eles ali entram e, por conta própria, dali não saem. É o sistema operacional deles.

Como bem tinha dito o amigo Silvio César, do excelente blog Tapiocaria, é uma pena que eles se acostumem a ver a Internet como se fosse apenas o que acontece dentro do Orkut, restringindo, por inocência, as próprias possibilidades de expressão. Mesmo assim, vendo o lado bom, eles estão conectados, o que em breve vai significar a necessidade de novas experiências. Por isso dois caminhos que vejo a curto prazo são: aproveitar a recente abertura do Orkut para criar aplicativos originais, e criar estratégias com as grandes embaixadas da Internet em comunidades menos favorecidas: as lan houses.

Foi o Sílvio que muito gentilmente me mandou esse texto sobre lan houses.O poder de penetração das lan-houses é impressionante, elas estão em cada beco, em cada esquina, num quartinho de fundos. Todas sempre reunindo a garotada, desde a molecada de classe média que o pai leva e busca de carro - agradecendo por ter onde deixar o menino - aos garotos que não têm opção alguma de lazer em seus bairros.

Vale lembrar que, enquanto em países como o Japão a venda de computadores fixos cai em detrimento da venda de dispositivos móveis, no Brasil agora que começa a se consolidar a transformação de computadores em “eletrodomésticos”. Com os preços mais em conta e as incontáveis prestações oferecidas, mais gente tem levado PCs pra casa. O resultado, como você pode ler nessa matéria da Exame, é que cada vez mais anunciantes no Brasil percebem que o paradigma que Internet é apenas para campanhas focadas nas classes A e B já foi por água abaixo.

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