Audiência absoluta não é tudo que você precisa
No ano passado se falou muito sobre a #ulrburra do site do governo do estado. Entre tantos excelentes posts, este do @silveira resume bem tudo o que ela tem de ruim. Ela continua aí, solenemente ruim. O debate é válido, não para criticar o governo. Este não é um blog com pretensões de debate político, nem será aceito nenhum comentário neste sentido com acusações de quem quer que seja. O foco aqui é levantar debates sobre comunicação, sobretudo dentro do que se convencionou chamar de “novas mídias”, o que nós todos ainda estamos no início do aprendizado, que se faz também através de erros.
Quero, a partir da #urlburra e de umas lembranças soltas, refletir se a gente já não parte de um equívoco no ponto de partida dos projetos. Aliás, sendo mais preciso, no que é mais difícil para todos nós, não nativos digitais: na cultura. Cobrados pelos clientes acostumados às métricas das ditas mídias tradicionais, tem muita gente fazendo de tudo para ver números crescendo a qualquer custo. Fazendo inclusive mal aos desavisados clientes, que sorriem satisfeitos sem perceber que suas metas mal elaboradas podem enterrar seu próprio negócio.
Um clique a mais?
Questionado sobre a #urlburra, em recente evento, o governador Cid Gomes, entusiasta inquestionável de tecnologia, disse que tratava-se apenas de um clique a mais. Pro usuário é mais que isso. Na hora que vi a declaração me vieram à cabeça pessoas que trabalham com e-commerce, e se desesperam ao ver que seus clientes param em determinada tela, ficam a um clique de converter a compra. Ou então a galera que gerencia banners em portais e fica louco por mais cliques, numa pressão desigual, já que em nenhuma outra mídia se exige tal tipo de interação plena - como prova de resultado -, além da exibição de marca - e cá entre nós, em nenhum outro suporte existe uma exibição com tão insignificativo desvio de atenção.
Serviço zero e morte o hipertexto
Certamente o cara que decidiu pela #urlburra fez isso para se livrar da pressão pela audiência, inflando as estatísticas de sua página inicial, evidenciando aos seus clientes que a visitação cresceu de forma exponencial. Como muito bem definiu @marioaragao, é um pedágio.gov .Há pelo menos dois erros muito graves. O primeiro é que um website – seja qual for, mas ainda mais sendo de governo - de serviço público tem por obrigação facilitar a vida do cidadão. Se ele cria uma etapa a mais, priorizando uma métrica viciada em detrimento de facilitar a vida do usuário, ele perde sentido. O foco não deveria estar na audiência amorfa, mas em cada pessoa.
Outro ponto é uma inexplicável tentativa de homicídio do hipertexto, já que não como linkar nada para um permalink interno. Em outras palavras, significa muito menos audiência qualificada, que de fato estaria interessada no conteúdo. Toda a idéia de rede vai por água abaixo, fazendo da página uma ilha isolada num oceano sem fim de informação. O pagerank também vai para as cucuias, como explica o @gabsramalho. Sem contar que querer enganar o Google nem sempre é o melhor caminho e que, em termos de usabilidade, é um suicídio declarado.
Audiência a todo custo
Dia desses um amigo me contou uma historinha interessante, que você deve conhecer parecida – ou igual. Determinado cliente havia estabelecido uma meta X de audiência para um website em um número Y de meses. Chegando ao fim o prazo definido pelos patrões, o Analytcs registrava resultados muito inferiores. Há poucos dias da data-limite, no entanto, algo mudou. Dezenas de milhares de pessoas passaram a visitar o tal endereço. O amigo ficou curioso com tal reviravolta, checou com o Analytcs de onde vinha tanta gente repentinamente. Descobriu um banner num site pornográfico, prometendo diabruras impublicáveis a quem clicasse nele.
O amigo, então estagiário, ficou espantado ao ver o cliente morto de feliz com o resultado. De fato aquela quantidade de pessoas estipulada por ele – sabe-se lá em quais parâmetros – esteve no site. Baseado num conceito de audiência de mídia tradicional, o problema havia sido resolvido. Não interessa que aquelas milhares de pessoas tenham ficado fulas da vida ao não encontrarem o conteúdo desejado, não fossem público-alvo, possivelmente nem falassem português, enfim, estabelecia-se ali um case de uma enorme não-comunicação.
Produção Industrial
Entre os diversos equívocos pela audiência, está a falsa crença que se deve gerar uma quantidade incessante de conteúdo para ser mais lido. Nem sempre é assim. Quantidade não é sinônimo de relevância. Há diversos fatores aí. O primeiro a ser avaliado é a natureza do seu conteúdo, aliada aos hábitos do seu target. Muitas vezes a produção exagerada de conteúdo gera desgaste. Eu mesmo já cancelei assinaturas de RSS pela quantidade absurda de atualizações, intuitivamente averiguando que uma porcentagem reduzida era de fato de meu interesse. Estudando seus relatórios de estatísticas, você conhecerá melhor quem está do outro lado, quais seus hábitos, temas preferidos, horas de consulta.
Hora de rever os conceitos
Na mesma linha seguem scripts pra Twitter e outras malandragens pra catapultar audiência. Fica a pergunta: a quem interessa esta audiência a todo custo? O cliente se alegra ignorando o sumiço no Google, as taxas de rejeição altíssimas e tempo de permanência ínfimos.
Vamos ressuscitar questões debatidas há anos. Como comparar o envolvimento de um usuário, por exemplo, que assiste um vídeo de dois minutos no seu site, participa de uma promoção e ainda retwita uma notícia sua, em relação a três para-quedistas que por lá aterrissam e fogem em segundos?
Ótimo, que venham os para-quedistas, nos preparemos para que eles se sintam em casa. Mas, muito mais, se há tanto tempo se fala em conceitos como engajamento, usabilidade, sociedade em rede e colaborativismo, já está na hora de se reavaliar as metas buscando uma relação mais perene, intrínseca, que permita a difusão de nossa mensagem através de pessoas de fato interessadas em nosso conteúdo. Isto é muito, mas muito mais consistente do que a busca insana, a todo custo, por mais views ou followers. Aliás, por números, não pessoas. As varíaveis de mensuração, se avaliadas em conjunto, funcionam muito melhor do que isoladamente, como mostra, por exemplo, este post.
Vamos buscar o caminho juntos, sempre lembrando que a web, como todo meio, tem suas peculiaridades. E elas não devem ser respeitadas apenas em discurso.


