Deixem Platão em paz

Hoje entra no ar “A Lenda de Beowulf”. Quem teve a chance de pegar uma pré-estréia se impressionou com o rompimento de mais algumas fronteiras entre o que temos esteticamente concebido como real ou não. Gravado com seres humanos (quero dizer, não é somente uma animação), o filme exibe cenários e personagens surreais em imagens 3D - quem não jurava que isso fosse ultrapassado?

Quem dera que a confusão sobre o que é real ou não estivesse apenas no que os nossos olhos captam. Ela vai muito além do total desconhecimento dos gerentes de marketing, ou das incessantes buscas de pesquisadores geeks. Ela está nas mais simples relações humanas, realizadas hoje em sua plenitude no mundo virtual.

O que se esquece é que nessas redes sociais a voluntariedade continua tendo valor, senão todo o discurso sobre a Web 2.0 cai por água abaixo. Ninguém está simplesmente entrando no reino da fantasia para se refugiar do cotidiano, como muito se teorizou no começo das redes sociais na Web. Uma prova real é a resistência que os membros do Facebook estão tendo ao modelo de propaganda onde, sempre que você faz uma compra online em determinados sites, todos os seus amigos ficam sabendo daquela compra.

O Facebook diz que é apenas uma minoria de pessoas que está reclamando. Talvez seja. Mas eles sabem mais do que ninguém que uma fogueira incendeia uma floresta tanto na “vida real” quanto na Web. Mais forte do que a decisão de governos de proibir a propaganda personalizada, será a migração de membros de uma comunidade que se sentirem traídos. Ainda mais no caso de Facebook, que explodiu pela possibilidade dos inúmeros aplicativos em seu código aberto.

A Microsoft, embora mantenha seu império, cada vez mais tenta se livrar da imagem negativa de monopolista, o que nem sempre é fácil. O Google, mesmo com sua incrível gama de excelentes serviços, há muito perdeu sua aura de empresa cool, hoje nas mãos de outras startups emergentes, e é xingado nos quatro cantos do mundo sendo acusado de invasão de privacidade. O Adsense, é claro, está nesse pacote.Ainda mais quando integrado ao Gmail.

Pra se livrar da mesma acusação, o Facebook já usa, através de terceiros, o antipático argumento:”se você quer privacidade, por que entra numa rede social?”. Isso é estúpido. Participar de uma rede social online em nada mais difere de participar de uma rede social no curso de inglês, no trabalho ou em qualquer outro lugar. A pessoa entra para ter um lugar dentro do seu grupo. Se não gostar, simplesmente sai e procura outro grupo.

Eleição da onipresença

Nas eleições de 2008 os sites dos candidatos serão mais do que nunca o que Michel Lent denominou de casa da propaganda. Por mais belos ou trabalhados que sejam, funcionarão muito mais como um grande depósito de vídeos, áudios, widgets, papéis de parede,tudo que possa se expandir pela web.

A parceria entre a ABC e o Facebook apenas evidencia um debate que deverá estar em todos os lugares, assim como os candidatos também não deverão deixar cada espaço existente, o que é mais fácil no mundo digital do que entre os átomos. Amanhã é a vez do debate entre os republicanos na cosagrada parceria CNN/YouTube. Os eleitores, nem sempre muito empolgados sequer pra votar, tem chance de participar de debates nas mais diversas plataformas colaborativas.

E se você tem interesse em design, vale clicar aqui para ver a análise dos logos dos candidatos feita pelo New York Times. Pra quem prefere campanhas virais de gosto duvidoso, uma boa dica é conhecer o candidato que “foi aprovado” pelo Chuck Norris. Bem, se no Ceará já teve candidato eleito porque era amigo do Romário…

Pra terminar, fugindo um pouco do tema: uma lista interessante de objetos do desejo (para trabalho) do jornalista online.

Atualizando: o IDG publicou uma lista dos 10 mais engraçados entre os quatro mil enviados para debate dos republicanos na parceria CNN/YouTube.

Mais uma dose

Experiências em que uma série de ações programáveis passam uma sensação de interatividade não são novidade. Pra ficar nos clássicos, lembremos da Subservient Chicken , Virtual Bartender e inúmeros derivados. Mas será que sempre aplicar a forma vai significar mais do mesmo? Se fosse assim o mundo publicitário estaria morto, até porque a maioria das formas, por questões básicas de mercado, necessitam de padronização.

O que muda é o conteúdo, como apresentar a idéia de uma forma interessante, que gere uma experiência enriquecedora para o usuário. Como bem já tinha alertado Tiago Dória no post que fez para falar da Pin Up Bar, série de webvídeos ensinando a fazer drinks, criada pela Espalhe para divulgar um modelo retrô da Brastemp, o “filão” culinário-gastronômico é um campo fértil para videocasts.

Eu, com meu gosto “vulgar”, que curto mesmo uma cerveja gelada, acho bem chato essa moda do uso capital nas relações pessoais e profissionais do conhecimento sobre bebidas alcoólicas, especialmente do vinho. Mas é a vida… Como de uísque não suporto nem o cheiro, já tenho uma forma de angariar conhecimento sobre a bebida pra quando não tiver o que falar com um cliente amante do destilado. Basta fazer uma degustação online. Caramba, se eu que não curto o produto posso ser um multiplicador, imagina que prato cheio não é esse site para os adoradores de uísque.

Via Adverblog.

Internet pra pobre

Num jantar que antecedeu o Internet Governance Forum (IGF), realizado semana passada no Rio, Vint Cerf, vice-presidente do Google e um dos criadores da Internet, disse que o principal objetivo do evento era levar acesso s 5 bilhões de pessoas que ainda não estão conectadas internet. Isso aconteceu quase simultaneamente declaração de outro executivo do Google prevendo um boom na publicidade online do Brasil em poucos meses.

As duas notícias não são paradoxais, apenas expõem o que a gente sabe há muito tempo: a existência de mundos completamente diferentes dentro do mesmo planeta, e que o mundo que nós, conectados, vivemos, é muito menor do que outro. Tá, e daí?

Todos nós sabemos que poucos investimentos podem ser mais rentáveis do que os focados nos públicos de baixa renda. Casas Bahia é apenas um dos exemplos. Dia desses ouvi de um empresário que vende sapatos baratíssimos com esses crediários de mil vezes afirmando com todas as letras que não sabia mais onde colocar tanto dinheiro.

E como a internet entra nisso?

Nessa semana comecei a dar aula de conteúdo web (estimulando criação de blogs, podcasts, …) em um projeto da ong Aldeia instalado dentro de uma escola pública numa comunidade carente. No segundo dia fomos a uma lan house. Os meninos excitadíssimos, todos correndo pro Orkut. Ratifico o que já tinha visto em outros bairros: o Orkut é a ferramenta mais eficiente de inclusão digital. O problema é que eles ali entram e, por conta própria, dali não saem. É o sistema operacional deles.

Como bem tinha dito o amigo Silvio César, do excelente blog Tapiocaria, é uma pena que eles se acostumem a ver a Internet como se fosse apenas o que acontece dentro do Orkut, restringindo, por inocência, as próprias possibilidades de expressão. Mesmo assim, vendo o lado bom, eles estão conectados, o que em breve vai significar a necessidade de novas experiências. Por isso dois caminhos que vejo a curto prazo são: aproveitar a recente abertura do Orkut para criar aplicativos originais, e criar estratégias com as grandes embaixadas da Internet em comunidades menos favorecidas: as lan houses.

Foi o Sílvio que muito gentilmente me mandou esse texto sobre lan houses.O poder de penetração das lan-houses é impressionante, elas estão em cada beco, em cada esquina, num quartinho de fundos. Todas sempre reunindo a garotada, desde a molecada de classe média que o pai leva e busca de carro - agradecendo por ter onde deixar o menino - aos garotos que não têm opção alguma de lazer em seus bairros.

Vale lembrar que, enquanto em países como o Japão a venda de computadores fixos cai em detrimento da venda de dispositivos móveis, no Brasil agora que começa a se consolidar a transformação de computadores em “eletrodomésticos”. Com os preços mais em conta e as incontáveis prestações oferecidas, mais gente tem levado PCs pra casa. O resultado, como você pode ler nessa matéria da Exame, é que cada vez mais anunciantes no Brasil percebem que o paradigma que Internet é apenas para campanhas focadas nas classes A e B já foi por água abaixo.

Vídeo interativo

Poucas coisas têm me deixado mais ansioso do que a busca de novos conteúdos que gerem diferentes níveis de interatividade com o usuário. Tive o prazer de ser convidado pelo professor-doutor CidcleyTeixeira de Sousa, do Nash, para participar de um grupo de pesquisa e desenvolvimento em TV Digital, o que tem me tirado do “achismo” absoluto e quebrado a cabeça pra imaginar novos formatos.

Quando vejo uma experiência como essa da Agência Brasil, com o documentário interativo “Nação Palmares”, só posso ficar muito animado. Ele é uma evolução de outra reportagem bem legal, que é o “Consumo Consciente”. Pra entender melhor, veja a matéria na própria Agência Brasil.

Fica uma sugestão: assista os documentários. Primeiro porque são muito bons. Segundo porque eu gostaria de, se possível é lógico, explora-lo com uma pesquisa informal. O que você achou da experiência de interatividade? Foi de alguma forma intrusiva? Você preferiu assistir sem clicar em nada? Clicou e o conteúdo foi importante para a sua compreensão, ou acrescentou algo legal?

Tenho visto experiências semelhantes de hipervídeos, gostei demais da forma como esses formam feitos. Parabéns ao André Deak, coordenador do projeto e responsável pelo excelente blog onde vi a notícia.

Ah, e alongando a onipresente querela sobre o fim do papel, vale uma olhada no Kindle, lançado pela Amazon, onde você pode ler livros digitais e assinar jornais como O The New York Times por U$ 13,99 ou um blog como o Boing Boing U$ 1,99 mensais. Barato e sem detonar o meio-ambiente. Ih caramba, será que quando o papel “morrer” já vai levar os PCs junto?

Só o bom conteúdo salva

Desde os tempos em que vivia em agências, sempre tive medo da máxima que “o patrão é burro”. Eles podem até ser burros, mas ganham muito mais dinheiro do que eu. Por isso que volta e meia reduzo a marcha para tentar entender o que os caras estão pensando quando fazem de forma tão lenta movimentos considerados até por eles mesmos como sem volta.

Digo isso pensando no momento que vivem os jornais - pelo menos em Fortaleza. A situação é bem menos confortável quando você administra uma empresa que se vê obrigada a mudar seu modelo de negócios, e não sabe qual é o próximo modelo a ser viável comercialmente. Por incrível que pareça o meio jornal ainda tem vendas crescentes (e faz cases, como o Super-Notícia) . A Web cresce em ritmo mais rápido e promissor, só que sem um modelo de negócios, nesse campo específico de jornalismo, ainda consolidado. E se for pra colocar mais lenha na fogueira, olha que já tem até quem diga que a Web vai travar daqui a dois anos.

Aos tranqüilos olhos de quem vê de fora, minha impressão é que as redações continuam perdidas numa migração lenta que não foca na mudança de cultura dos produtores de notícias. Na maioria dos casos os jornalistas estão cambaleando pelo passado, entre as relutâncias de investimentos dos empresários e as próprias dúvidas de quem se vê obrigado a desenvolver habilidades nunca antes requisitadas, o medo do novo (novo?), a necessidade de ver a notícia e o leitor num enfoque diferenciado e, mais ainda, perceber que, ao gerar conteúdo para Web, terá que fazer de uma forma diferente, sem uma fórmula consagrada, muito mais que um texto, e ainda correndo sério risco de ser repreendido por quem acessar o conteúdo e não gostar muito do que encontrou.

O que para muitos é sedutor, poder buscar formatos diferenciados para disponibilizar conteúdo, para a grande maioria acostumada simplesmente a escrever dentro de espaços pré-definidos, é pelo menos assustador.

Essa semana Gilberto Knutz, o cara que conhece os meandros da Web, colocou em seus comentários sobre o BlogCamp-CE que admira o Leonardo Fontes, editor da versão digital do jornal Diário do Nordeste e “blogueiro-gerente” de uma rede de blogs, pela lucidez. Eu concordo plenamente. Leonardo é um dos melhores caras para se conversar sobre Web, porque ao mesmo tempo que a acompanha de muito perto, consegue um distanciamento crítico bem legal, não caindo na armadilha de considera-la uma panacéia milagrosa. O post que ele fez sobre o evento “Jornais e Internet: para onde aponta o futuro?, acontecido recentemente em São Paulo, tem interessantíssimas questões sobre a ainda ensaboada presença de muitos veículos na Web.

E falando em busca de conteúdo de qualidade, um dos momentos mais legais do BlogCamp-CE foi receber o livro Contos Bregas autografado. O autor é o Thiago de Góes, responsável também por um blog de literatura com o mesmo título. Além do livro ser muito bem escrito, com contos a partir de títulos inesquecíveis do cancioneiro brega, ele teve a manha de fazer um blog não sobre seu livro, e sim tangenciando o tema para criar uma comunidade que tinha tudo pra virar “freguesia”. Tem dado certo. A grande maioria das últimas vendas foi para leitores do blog.

Façam as suas apostas

Entre os mais fatalistas afirmar que os impressos vão morrer são favas contadas. Segundo eles, as novas gerações não teriam o apego que nós temos materialidade do impresso. Supostamente terão que consumir notícias de outra forma. Pode ser. Eu, por mais que goste de Web, ainda adoro revistas e livros.

O que mais chama a atenção é quando profissionais da área fazem o alerta. O editor do New York Times há muito tempo disse que a publicação deve deixar de ser impressa em poucos anos. O editor de El Clarin, Julio Orione, está com o a mesma papo conviccção (mudança atendendo ao Norton) no Periodismo Ciudadano, inclusive lembrando que há um ano o Washington Post tem receita maior vinda do digital do que do impresso.

O fato é que, como mostra o e-periodistas numa entrevista com Richard Stengel, editor da Time, todo mundo meio que tem uma receita de bolo, mas ninguém sabe como fazer. O resultado é óbvio. Se aqui no Brasil eu já não sinto nenhuma necessidade de ler jornal , embora eu nunca tenha consumido tanta informação, em países do primeiro mundo cada vez mais pesquisas mostram a migração dos impressos - e até da TV - para a Web.

Outro detalhe interessante é: como ficam as redações nesse movimento? É sabido que para muitos jornalistas o momento de transição é marcado por ceticismos românticos não muito sustentáveis. Por aqui a mudança é mais lenta, mas sempre acabamos indo a reboque. Vale abrir esse post do Editor´s Weblog pra ver como está a arquitetura de diferentes redações na integração entre produtores de conteúdos analógico e digital.

Atualizando: matéria de O Globo mostra que audiência cresce, mas modelo de negócios ainda não foi encontrado.

Pin up

A Fundamental é “filha” da Espalhe Marketing de Guerrilha. Deixa eu explicar melhor: a “empresa” Fundamental é uma nota fiscal. Não tem funcionário, não tem sede, não tem carimbo. A cada projeto, reuninos amigos com competências específicas, de acordo com a demanda. Tem de desenvolvedores que fazem tudo fucnionar a diretores de filmes publicitários, de SEOs cheios de truques mágicos a excelentes fotógrafos.

Todo mundo home-office. Mas o começo de tudo foi com a Espalhe, afinal foi a agência quem, há alguns anos, fez o jornalista aqui pensar em conteúdo web e seus derivados.

É muito legal ver ” no ar” cada novo produto produzido, buscando sempre algo diferente. Conheça o novo projeto da Espalhe que teve colaboração nossa: a Pin Up Barwoman. Para conhecer melhor o projeto, clique aqui.

Por que no Brasil nada pode ser feito do jeito certo?

Impressionante. Por que nada por aqui pode ser claro, transparente?

Se você está lendo um blog sobre conteúdo web, vídeo online, redes sociais, essas coisas aparentemente vindas de Marte para a maioria das pessoas, então certamente você tem um nível de informação privilegiado. Consulte então seus amigos sobre o que eles sabem a respeito do lançamento da TV Digital no Brasil, previsto para dois de dezembro. Garanto que você não conseguirá muita gente dispondo de informações relevantes.

Elas não existem. O processo foi obscuro, há um oba-oba meio sinistro por cima e a impressão que dá é que nada vai mudar a curto prazo, afinal quem vai querer gastar uma grana alta só por causa de uma imagem melhor? O mais engraçado é que, se você não quiser investir numa TV nova, até poderia comprar um set-top-box, que vai custar… isso também ninguém sabe.

Acredite se quiser, mas o ministro Hélio Costa fez uma comparação surreal com o Iphone e uma busca na Internet para provar que quem diz que vai custar R$ 700,00 está mentindo - aliás, sugiro que o ministro faça como eu, coloque um alerta no Google. O problema foi que ele esqueceu de combinar com os fabricantes. A Gradiente já anunciou que o preço do seu set-top-box será R$ 700,00 mesmo. Ou R$ 800,00.

Enquanto isso as grandes emissoras tratam tudo como se fosse uma festa aberta a todos. Está na hora de alguém explicar como será o acesso TV Digital, de que forma será a interatividade , como isso gerar inclusão social, enfim uma miríade de respostas que ainda não foram dadas . E pelo jeito não serão.

Fluxo de informação

O vídeo acima foi feito 5 meses atrás mostrando um dia da equipe do El Clarin edição digital. Interessante ver o fluxo da informação desde a que a notícia vem da redação ou outras fontes na Web, blogs em esquema de home-office, sem esquecer do serviço de pós-produção com uma boa dose de SEO. Vale a pena pra quem ainda acha que criar blogs que nãos e relacionam com ninguém seria um avanço na utilização da Web.

Vi o vídeo no blog Astrogyldo. Aliás, ele e o Téo, ambos conhecidos no Blogcamp do último fim de semana, tocavam um projeto legal de sair com uma pergunta filosófica pelas ruas atrás da resposta definitiva. Um deles, O Que é Mulher Gostosa?, foi visto 35 mil vezes. Pena que roubaram a câmera deles…

Outra coisa que eu fui tipo marido traído, o último a saber, foi do mega-ouvido podcast do Raphael e do Jurandir, do Cinema com Rapadura. Muito, muito legal mesmo. Já coloquei mais dois no MP3 pra ouvir no carro. Aliás, em vez de fazer post sobre o Blogcamp, vou aos poucos comentando os trabalhos que conhecia ou conhecia agora, tanto do pessoal que já está nessa há muito tempo e já é conhecido de todos na blogosfera, quanto os que estão chegando.

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